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sexta-feira, 14 de março de 2014

A Entrevista com São Suely

— Quem será no interfone uma hora dessas? Pronto. 

— Alex... 

— Sim, sou eu. 

— Alex, sou eu, São Suely. 

— Ué, no interfone? O que deu em você hoje? 

— Você fica reclamando que eu apareço de repente. 

— Tá bom, vou abrir... 

— Não precisa, já estou aqui do seu lado. 

— Eita porra! Você quer me matar? 

— Você achou que eu ia mesmo subir de elevador? 

— Vai saber... Bom, tinha esperança de que você não viesse.

— Já quer fugir do compromisso? 

— Não, vamos lá... Eu pensei no seguinte: eu faço uma página para você no Facebook, coloco sua história e, aos poucos, você vai organizando seus milagres e entrando em contato com seus fiéis. 

— Hum, gostei... Pode ser rosa? 

— Não, o Facebook é azul. Mas se você quiser, faz um milagre, quem sabe não fica rosa? 

— Não, vou deixar do jeito que você fizer. 

— Por que você está de terno preto? 

— A história hoje não é muito alegre. Vou te contar como virei santo, mas não posso me estender muito, porque algumas partes são secretas... Não podem ser reveladas. 

— Bom, então vamos lá.

— Nasci na Anatólia, estou vendo que você não sabe onde fica, hoje, é a Turquia... 

— Turquia? 

— Você vai me deixar contar a história? 

— Foi mal. Se você fosse mulher, diria que está de TPM. 

— Por isso gosto desses véus... Minha família era muito pobre, eu era o oitavo filho, o caçula depois de sete filhas. Como éramos muito necessitados e meu pai faleceu muito cedo, eu quase não tinha roupas e acabava usando as das minhas irmãs.

Ainda muito jovem, fui acolhido num mosteiro, onde convivi com monges e padres. Lá eu usava roupas de homem, mas, por serem batas, faltava um colorido... Ah, mas quando eu me trancava para dormir, colocava algumas roupas femininas antigas e dormia feliz. Até que dividi o quarto, durante um período, com um outro rapaz... Bom, na verdade não era um rapaz, era uma jovem disfarçada. Ficamos muito amigos, principalmente após trocarmos nossos segredos. Nós nos tornamos padres, ela e eu.

Inspirado nela, que usava roupa masculina o tempo inteiro, fugi dali e, disfarçado de freira, fui para um convento. Assumi o nome de Irmã Suely e assim ajudava muitas pessoas. Ah, eu era tão feliz ali... 

— Viveu muito tempo no convento? 

— Não muito. A Madre Superiora descobriu meu segredo no mesmo dia em que fui surpreendido com a notícia sobre a minha antiga colega de quarto: ela era muito inteligente, trabalhava diretamente com o Papa Leão IV e tinha se tornado o Cardeal João! 

— Mas o que a Madre fez? 

— Ela ia me entregar. Então, fugi do convento. O inverno era muito forte, cheguei a um vilarejo e vi uma menina passando muito frio na rua. Dei-lhe minha roupa e eu mesmo não suportei o frio... Acabei, você sabe.

O "Cardeal João" ficou sabendo da minha morte e todo dia me pedia ajuda espiritual para esconder seu segredo. Ah, como eu a ajudava! Não podia deixar que ela passasse pelo que passei. O Papa acabou falecendo logo depois de mim e o "Cardeal João" 

— não vou dizer com a ajuda de quem 

— tornou-se Papa. Ou melhor, Papisa. — Ué, a ajuda foi sua... 

— Pois é... Ela todas as noites me pedia para proteger seu amor, um jovem oficial da sua segurança, e por diversas vezes os ajudei em seus encontros amorosos para que tudo ficasse em segredo. 

— Então você tem experiência com questões de amor? 

— Eu não queria isso, mas só me pedem isso... Continuando: um dia, enlouquecida de amor, ela me pediu que lhe desse um filho e, logo que engravidou, por gratidão, nomeou-me santo com o meu antigo nome de padre 

— que não revelo por nada. Mas na intimidade, o Papa, ou melhor, a Papisa Joana, me convocava como São Suely, e desde então é como sou conhecido.

A gravidez da Papisa foi descoberta no momento em que ela deu à luz em meio a uma procissão. O povo, incentivado pelos inimigos dela na Igreja, a apedrejou... E ela acabou morrendo. 

— Mas você não a ajudou? 

— Eu fui impedido, por ordens superiores, de ajudá-la. Isso tudo virou um reboliço na Igreja e lá em cima. Aqui na Terra, destruíram todos os registros da Papisa e, junto com isso, os meus também. Lá em cima, fiquei proibido de trabalhar com os vivos; me deixaram na geladeira, como vocês dizem, até agora. Tudo por causa de Pedro. Ah, desculpe-me: São Pedro. Ele é ciumento... Se sentiu ofendido com uma mulher no seu antigo lugar na Terra. Desde então, ele se voluntariou para tomar conta do portão só para impedir que eu colocasse a Joana no céu. 

— Quer dizer que ele ficou melindrado? 

— Pois é. Depois eu é que sou o esquisito. 

— Mas... 

— Ah, tá bom, não quero mais falar disso... O que importa é que agora eu posso trabalhar aqui embaixo. 

— Que bom que deixaram. 

— Deixaram, foi? Quem disse isso? 

— Mas você está aqui... 

— Eu sempre fugi, e fugirei sempre que puder ajudar alguém. De que adianta ser santo se não for para ajudar as pessoas? Ai, cansei, já vou andando. 

— Hoje você está estranho. Não vai insistir para ficar? 

— É que já está tendo efeito a sua postagem no Face... É assim que vocês chamam, né? 

— É mesmo? Quem foi? 

— Não posso dizer. Só vou te dizer que me pediu um amor. 

— É, então deu ruim, porque só no meu Face devem ter umas 950 pessoas querendo amor e umas 450 querendo manter o que têm. 

— Pois é, foi uma delas... Precisando, é só chamar. Agora vai lá fazer o que você tem que fazer, que eu vou trabalhar. 

— Tá certo.

   
Alex Huche

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