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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Fobia

- O que houve?
- Tenho medo de barata... Os outros meninos sabem e chegam por trás de mim e gritam: "Olha a Barata!!!" Então eu corro, porque, vai que é verdade.
- Quantas vezes foram verdade?
- Nenhuma, graças a Deus!
- E, o que aconteceu?
- Como eu dizia, eu estava andando e um grupo de meninos gritaram " Olha a Barata!" E eu corri, mais do que eu podia. Enquanto eu fazia a curva no pátio, outro menino surgiu ao meu lado e gritou novamente: "Olha a Barata! Foi quando me assustei e caí, rolando no pátio e me machucando desde jeito.
- Entendi. Posso te dizer uma coisa?
- Claro e já até sei o que é: "Você é bobo por acreditar nesses meninos..."
- Não, a Barata, ainda está no seu o ombro... Hei, menino, Volte aqui!!!!

Alex Huche

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Preamar

Todos estranhavam aquele senhor, pele enrugada, olhar sério, pele morena de sol, mas quando era visto sem camisas, podia-se ver a marca não de uma, mais de várias camisetas que se sucediam dia após dia na vida dura que levava de sol a sol. 
Certa vez, não contive minha curiosidade, pois aquele senhor só vinha no bar, quando vinha ao Banco, aqui em frente, para receber seu pagamento. Então ao vê-lo chegar, apressei-me em terminar de lavar as louças, trabalho sem fim neste "pé-sujo". O atendi, sujeito estranho, primeiro me pediu um copo com água e o bebeu em um gole só, em seguida me pediu um fogo Paulista, bebida que sempre achei muito doce, mas se ele a quis, quem sou eu para questionar? Gosto é gosto. Entre um copo e outro que me apressa a em lavar, busquei uma forma de puxar assunto, aquele senhor de aparência cansada, me parecia solitário e sisudo. Foi quando eu lhe disse: - Eta serviço marcante que não acaba.
Com um olhar sério, ele me disse: - você acha?
- Nossa, só acho! Sirvo a bebida, pego o copo, lavo o copo, sirvo a bebida, pego o copo, lavo o copo... Minha mão fica enrugada o dia todo.
- Eh, a minha também.
- Tua pele parece tão seca. Qual o seu nome, amigo?
- É sim... me chamo Norberto.
- O que conta são as amizades que faço aqui, Norberto... me chamo Élcio.
- Isso é bom, meu trabalho é um dos mais solitários e menos lembrado.
- Ah, mas aqui a rotina é cansativa.
- É? Deveria ver o meu... 
Mais de perto, pude perceber as marcas do tempo, do sol, a pele rachada e lhe perguntei: - muito tempo no seu trabalho?
- Minha vida toda... engraçado você falar de rotina. O meu trabalho se dá apenas pela rotina e com o mínimo de contato com outras pessoas, até porquê, não tenho colegas onde trabalho.
- Eu tenho 42 anos e estou nesse balcão há mais de 20 anos, e o senhor, quanto tempo de profissão?
- 24... 24 anos, há 24 anos eu abro a comporta, deixo a água do mar entrar, alagar o terreno, no chão gradeado, vejo se formar um lindo espelho de água, é uma das coisas que mais gosto... com o terreno alagado, espero a água sumir, dias de sol, ela sempre vai e deixa na terra uma nata branca, com uma pá raspo o solo, retiro o sal, empilho num canto. Depois, abro a comporta, deixo o solo alagar, olho o espelho, espero secar, raspo o solo, tiro o sal, empilho no canto. Abro a comporta, alago o solo, espero secar, raspo o chão, tiro o sal, empilho num canto.
- Nossa, você faz sal?
- Não, só tiro da água do mar.
- sim, entendi, mas... que diferente.
- É, todo mundo me diz isso, acho que pensam que o sal já surge ensacado.
- Não, Eu sei que não.
- Pois bem, alguém tinha que fazer... e é o que faço... me dê mais um copo d'água?
- Claro... tome... e eu achando meu trabalho maçante... Putz, o teu me parece muito mais.
- A vida é assim, todo mundo reclama de tudo que tem, tudo é sempre pouco, as pessoas não têm tempo para felicidade, não enxergam a sorte que têm... tenho pouco, com o pouco que tenho, tento ser feliz, tento ter meus sonhos.
Olhando aquelas marcas de expressão, aquela pele intrigante, que nem todo creme do mundo conseguiria hidratar, perguntei: - Há tanto tempo o senhor está nessa vida, mesmo preso a uma vida tão dura, tanta sabedoria o senhor carrega... Quantos anos tem?
- É, no meu trabalho, tenho muito tempo para pensar, observar a vida ao meu redor. Onde trabalho, não tenho muito o que ver, mas vejo a vida com os olhos da alma, se isso é sabedoria, eu não sei, mas não é porque minha pele é enrugada que sou um velho.
- Quantos anos o Senhor tem?
- 38 anos, não sou sábio, só não sou cego.

Alex Huche

sexta-feira, 14 de março de 2014

A Aparição

— Ai, meu Deus... Queria tanto ter um apego... Ah, se eu acreditasse em santos... Vou dormir.

— Ei... 

— Hã... 

— Ei, acorda... 

— Hum... Que porra é essa? Como você entrou aqui? Quem é você?

— Ah, me desculpe, assustei você? 

— Olha aqui, vou te meter a porrada... Eu devo estar sonhando, acordar com um travesti me sacudindo. O que é isso? 

— Travesti não, crossdressing. 

— Que seja, o que você faz aqui?

— Me desculpe, sou um santo, o São Suely. 

— Santo? Crossdressing? 

— Isso. Você não pediu um santo?... Então, eu vim. 

— Santo? Crossdressing? 

— Você está repetitivo, tá chato. 

— Tá, deixa eu ver se entendi... Você veio para me ajudar? 

— Sim. 

— Nunca ouvi falar em São Suely. 

— Esse é o meu problema, sempre fui discriminado no passado por gostar de roupas de mulheres. 

— Há de convir que é estranho. 

— Pode ser. 

— Santo que se veste de mulher... 

— Qual o problema? Não sou santo por causa da minha roupa, mas porque fui uma pessoa muito boa. Eu sempre quis ajudar as pessoas necessitadas. 

— Entendi. Qual a sua especialidade? 

— Aí é que tá: como ninguém me conhece, não me chamam para nada. Então eu não sei o que eu posso fazer. 

— Vamos ver... Quem são suas referências de santos? 

— Ah, eu admiro muito a Santa Edwiges, mas com essa crise financeira, ela está sobrecarregada... Tem o Santo Expedito, esse é tipo o MacGyver do céu, resolve só situação complicada... Tem o São Jorge, mas esse coitado é o Santo Guerreiro, você sabe como é o Rio de Janeiro, isso aqui é uma loucura. Qualquer policial, bandido, bicheiro, macumbeiro se apega com ele pedindo proteção. Ele está tão atarefado que não tem tempo nem de dar água ao cavalo... O que você precisa? 

— Eu quero ser feliz, me sinto triste ultimamente. 

— Eu sei o que é isso, se sentir só. 

— É, mas não é só isso... Eu quero amor. 

— Hum, amor é difícil, sabe disso, né? Santo Antônio arruma casamento, mas com amor ele nem sempre consegue, isso é com vocês... Mas vou te ajudar. 

— O que eu preciso fazer? Qual o tipo de reza? 

— Ah, não tenho tipo de reza, não tenho ninguém para atender, então é só você pedir que eu venho. 

— Sei... 

— Fique tranquilo e durma, amanhã estará tudo bem.

No dia seguinte...

— Caramba, que sonho estranho... E tem mensagem aqui para mim... Ah, não acredito! Sou doido por essa mulher e agora ela quer sair comigo? Não acredito... Será?... Não!

Mais tarde...

— Rapaz, que noite foi essa! Estou exausto e apaixonado... Vou dormir.

Minutos depois...

— Ei... 

— Hã?... 

— Ei... Acorda. 

— Caraca, você de novo! 

— O que achou dela te procurar? Acertei na escolha? 

— Então foi você? Eu achei que eu estava bêbado ontem e tinha imaginado você. 

— Não, você estava muito bêbado, mas era eu mesmo. 

— Mandou bem, obrigado... Como posso agradecer? Quer vela, pulinho, quer o quê? 

— Pulinho é com o São Longuinho... Ele se diverte com vocês. Olha só, como você foi meu primeiro atendimento, acenda dois incensos de sândalo. 

— Sândalo é muito viado. 

— Mas você tem. 

— É verdade, não é viado, não. 

— Queria te perguntar: o que você achou de mim? 

— Legal, é estranho, mas é do bem. Sabe como é, santo com roupa de Virgem Maria fica esquisito, né? Mas ó, gostei de você... não, não faz essa cara de triste. Só acho que você deve evitar aparecer no quarto dos outros assim. 

— Sei, aprendi com o anjo Gabriel esse negócio de invadir o quarto à noite. 

— Hum, esse véu azul e branco não está legal, vão te confundir com a Madre Teresa de Calcutá. 

— Acha que devo mudar de cor? 

— Claro. 

— Qual? 

— Qual você gosta?

— Fúcsia. 

— Putz... Pensando bem, você ficaria bem com uma cor púrpura. 

— Você foi o único que atendi até hoje... Você vai me chamar de novo? 

— Vou. 

— Acha que vai demorar? 

— Você é meio carente, não? 

— Ninguém fala comigo no céu... Muito preconceito, só porque eu sou homem com roupa de mulher. 

— Mas que diferença faz para eles? Ninguém faz sexo lá em cima. 

— Pois é, vou te contar o que aconteceu: no céu, meu trabalho era muito importante, era eu quem decidia para onde as almas iam, mas eu ficava para morrer de novo porque o São Pedro levava a fama. Na verdade, ele é só o porteiro, tipo recepcionista, e por isso ninguém sabia de mim. Aí resolvi atuar aqui embaixo, com vocês... Você gostou mesmo de mim? 

— Gostei. 

— Posso ficar aqui mais um pouco? 

— Porra, São Suely, eu tenho que dormir! 

— Hum, você é grosso... Eu sei que você tem que dormir, mas é que ninguém fala comigo, só você... Eu fico meio sozinho. 

— Sei... Vou fazer o seguinte: eu vou postar no Facebook sobre você, contar a minha história e como você me ajudou. Tenho certeza que te arranjo uns devotos. 

— Mas você vai postar agora? 

— Já entendi, vou. Vou postar agora. 

— Ah, tá!... Já postou? 

— Não, ainda estou escrevendo. 

— Já pensou no que vai escrever? 

— Já estou escrevendo. 

— Poxa, você já se encheu de mim, né? 

— Não é isso, é que você não me deixa escrever! 

— Tá bom. 

— Pronto, agora só falta assinar: "Alex Huche". 

— Ai, que bom... Agora vá dormir que amanhã você acorda cedo.


Alex Huche

A Aparição II

— Oi! 
— Ai, cara, o que é isso? 
— Ué, sou eu... 
— São Suely, como que você veio aparecer aqui? Não vou me acostumar com você aparecendo toda hora... Logo agora que estou dirigindo na estrada, você vem e me surge do meu lado? 
— Não tinha nada para fazer, pensei: "Tive uma ideia." 
— Pô, qual era a ideia? Era me matar de susto, né? Causar um acidente ou qualquer coisa assim? 
— Não, nada disso. Pensei: poxa, ninguém me pede nada porque eu não sou conhecido... Eu estava olhando aqui o seu Facebook... 
— Porra, você está vasculhando meu Facebook? 
— Ah, deixa de bobagem, eu olho o que eu quiser. Eu sou santo, olho até o que passa na sua mente... 
— Não, pelo amor de Deus, não faça isso! 
— É que... É o seguinte: eu estava vendo aqui, você tem mais de 1500 pessoas no seu Facebook. 
— É, isso aí, tenho um bocado de gente mesmo. 
— Você deve se achar o máximo, mas tem gente que tem mais de um milhão... 
— Não, não quero ter um milhão, não. Vai ter muita gente querendo bater papo comigo e eu não tenho tempo. 
— Sei... Escuto essa conversa no céu o tempo todo, ninguém nunca tem tempo para os outros... Só eu tenho que ter tempo para todo mundo. 
— Tá, mas diz aí, qual a sua ideia, São Suely? 
— Eu pensei que, com esse pessoal que você conhece, você podia me divulgar, né? Eu conto para você a minha história e você escreve no Facebook. 
— Mas eu não escrevi naquele dia? 
— Tá, mas você pode fazer melhor: faz uma página para mim e lá põe a minha história... Assim eu consigo alguns seguidores. 
— Tudo bem, mas você vai ser o quê? Santo do amor? 
— Não, do amor não... Já que eu não tenho especialidade, eu quero ser um santo assim tipo polivalente, tipo... "all in one". 
— Ué, mas... Esse não é Jesus Cristo? 
— Não, e... Que é isso, Jesus Cris... Deixa isso para lá! Fala isso baixo, que o pai dele é dono da parada toda e, se você me acha carente, o pai dele é mais ainda... Sabe como é, né? Ele é tão carente, tão carente, que quer ser amado sozinho e incondicionalmente... Ele não aceita que os homens acreditem em outros deuses. E aí os seguidores dele acham que é só ele que existe no mundo de Deus. 
— Mas já que a gente está falando nisso, me diz: tem mais deuses? 
— Alex, vamos deixar isso para lá... Eu não quero ter problemas. Me diz: o que você achou do meu manto púrpura? 
— Porra... Ficou bonito... Ficou bonito, São Suely.
— Hum, falando assim, parece que não gostou. 
— Só te aconselho a não aparecer para os outros com esse manto, assim como você fez comigo. Porque na primeira vez até que convém você usar uma coisa mais discreta... 
— Olha, o que você acha? Uso um terninho, um tubinho? 
— Não, pelo amor de Deus, Su... Vai usar um tubinho? Porra, não dá, velho, um tubinho não dá... Pô, você está doido? Quer ser o quê, o Santo das Mortes Inesperadas? 
— Os outros santos usam camisola e ninguém estranha... Então uma coisa mais leve, uma minissaia... 
— Porra, minissaia, caralho? Aí, você é um santo muito doido! 
— Não sei por que você ri... 
— Nada, não. 
— Hum, que tal um longo? 
— É, está bom. Um longo, com um manto assim... rosa-bebê, uma coisa mais light para você ficar mais feliz. 
— Ah, tá. Vou te contar minha história... 
— Bom, mas agora não dá, você está vendo que estou dirigindo. 
— Ué, eu posso fazer o carro morrer e te conto a história. 
— Não, pelo amor de Deus! 
— Mas você está falando comigo, cara. 
— Eu sei, São Suely, eu sei... Faz o seguinte: à noite você passa lá em casa e me conta a sua história. 
— Ah, então está bom... Posso ficar mais um pouquinho com você?
— Pode, mas me diz uma coisa: só eu posso ver você no momento? 
— É, porque só você acredita em mim. Eu só vou existir para quem acredita... Nós do plano celestial só existimos para vocês enquanto vocês acreditam em nós. 
— Mas eu não acreditava em você, nem sabia que você existia. 
— Ah, é... Não acreditava, mas você estava bêbado e desesperado. 
— Tá bom. Então fica aí, porque ia ser estranho eu dirigindo na Rodovia Amaral Peixoto ao lado de um homem trajando um vestido e um manto púrpura. 
— Ah, adoro essa música! Não aguento mais harpas... Esse solo do Santana é maravilhoso. — Ué, lá no céu não tem outros instrumentos? 
— Tem, claro que tem... Mas aí é flauta doce, flauta transversa, é gaita... Todo dia é chato. 
— Sei... Jimi Hendrix está lá? 
— Ah, esse sola na harpa que é uma maravilha, mas agora está proibido. 
— Por quê? 
— Ah, ele ateou fogo em três harpas no palco celestial, foi uma doideira! 
— Está bom, São Suely... Vamos fazer o seguinte: vamos ouvir o solo do Santana, depois tem Eric Clapton e, em seguida, Pepeu Gomes. 
— Adooooroooo! Adoro quando ele canta que é um homem feminino. 
— Valeu... rsrsrs. Ah, e obrigado! O encontro foi show... 
— Eu vi. 
— Hã? 
— Eu vi, ué! 
— O que você viu? 
— Tudo... 
— Você sabe que aquilo nunca me aconteceu antes. 
— Isso é normal, meu filho... Acontece com todo homem... Mesmo assim, você não achou maravilhoso? 
— Sim. 
— É o que basta. 
— Hum... Tá certo.

Alex Huche

A Entrevista com São Suely

— Quem será no interfone uma hora dessas? Pronto. 

— Alex... 

— Sim, sou eu. 

— Alex, sou eu, São Suely. 

— Ué, no interfone? O que deu em você hoje? 

— Você fica reclamando que eu apareço de repente. 

— Tá bom, vou abrir... 

— Não precisa, já estou aqui do seu lado. 

— Eita porra! Você quer me matar? 

— Você achou que eu ia mesmo subir de elevador? 

— Vai saber... Bom, tinha esperança de que você não viesse.

— Já quer fugir do compromisso? 

— Não, vamos lá... Eu pensei no seguinte: eu faço uma página para você no Facebook, coloco sua história e, aos poucos, você vai organizando seus milagres e entrando em contato com seus fiéis. 

— Hum, gostei... Pode ser rosa? 

— Não, o Facebook é azul. Mas se você quiser, faz um milagre, quem sabe não fica rosa? 

— Não, vou deixar do jeito que você fizer. 

— Por que você está de terno preto? 

— A história hoje não é muito alegre. Vou te contar como virei santo, mas não posso me estender muito, porque algumas partes são secretas... Não podem ser reveladas. 

— Bom, então vamos lá.

— Nasci na Anatólia, estou vendo que você não sabe onde fica, hoje, é a Turquia... 

— Turquia? 

— Você vai me deixar contar a história? 

— Foi mal. Se você fosse mulher, diria que está de TPM. 

— Por isso gosto desses véus... Minha família era muito pobre, eu era o oitavo filho, o caçula depois de sete filhas. Como éramos muito necessitados e meu pai faleceu muito cedo, eu quase não tinha roupas e acabava usando as das minhas irmãs.

Ainda muito jovem, fui acolhido num mosteiro, onde convivi com monges e padres. Lá eu usava roupas de homem, mas, por serem batas, faltava um colorido... Ah, mas quando eu me trancava para dormir, colocava algumas roupas femininas antigas e dormia feliz. Até que dividi o quarto, durante um período, com um outro rapaz... Bom, na verdade não era um rapaz, era uma jovem disfarçada. Ficamos muito amigos, principalmente após trocarmos nossos segredos. Nós nos tornamos padres, ela e eu.

Inspirado nela, que usava roupa masculina o tempo inteiro, fugi dali e, disfarçado de freira, fui para um convento. Assumi o nome de Irmã Suely e assim ajudava muitas pessoas. Ah, eu era tão feliz ali... 

— Viveu muito tempo no convento? 

— Não muito. A Madre Superiora descobriu meu segredo no mesmo dia em que fui surpreendido com a notícia sobre a minha antiga colega de quarto: ela era muito inteligente, trabalhava diretamente com o Papa Leão IV e tinha se tornado o Cardeal João! 

— Mas o que a Madre fez? 

— Ela ia me entregar. Então, fugi do convento. O inverno era muito forte, cheguei a um vilarejo e vi uma menina passando muito frio na rua. Dei-lhe minha roupa e eu mesmo não suportei o frio... Acabei, você sabe.

O "Cardeal João" ficou sabendo da minha morte e todo dia me pedia ajuda espiritual para esconder seu segredo. Ah, como eu a ajudava! Não podia deixar que ela passasse pelo que passei. O Papa acabou falecendo logo depois de mim e o "Cardeal João" 

— não vou dizer com a ajuda de quem 

— tornou-se Papa. Ou melhor, Papisa. — Ué, a ajuda foi sua... 

— Pois é... Ela todas as noites me pedia para proteger seu amor, um jovem oficial da sua segurança, e por diversas vezes os ajudei em seus encontros amorosos para que tudo ficasse em segredo. 

— Então você tem experiência com questões de amor? 

— Eu não queria isso, mas só me pedem isso... Continuando: um dia, enlouquecida de amor, ela me pediu que lhe desse um filho e, logo que engravidou, por gratidão, nomeou-me santo com o meu antigo nome de padre 

— que não revelo por nada. Mas na intimidade, o Papa, ou melhor, a Papisa Joana, me convocava como São Suely, e desde então é como sou conhecido.

A gravidez da Papisa foi descoberta no momento em que ela deu à luz em meio a uma procissão. O povo, incentivado pelos inimigos dela na Igreja, a apedrejou... E ela acabou morrendo. 

— Mas você não a ajudou? 

— Eu fui impedido, por ordens superiores, de ajudá-la. Isso tudo virou um reboliço na Igreja e lá em cima. Aqui na Terra, destruíram todos os registros da Papisa e, junto com isso, os meus também. Lá em cima, fiquei proibido de trabalhar com os vivos; me deixaram na geladeira, como vocês dizem, até agora. Tudo por causa de Pedro. Ah, desculpe-me: São Pedro. Ele é ciumento... Se sentiu ofendido com uma mulher no seu antigo lugar na Terra. Desde então, ele se voluntariou para tomar conta do portão só para impedir que eu colocasse a Joana no céu. 

— Quer dizer que ele ficou melindrado? 

— Pois é. Depois eu é que sou o esquisito. 

— Mas... 

— Ah, tá bom, não quero mais falar disso... O que importa é que agora eu posso trabalhar aqui embaixo. 

— Que bom que deixaram. 

— Deixaram, foi? Quem disse isso? 

— Mas você está aqui... 

— Eu sempre fugi, e fugirei sempre que puder ajudar alguém. De que adianta ser santo se não for para ajudar as pessoas? Ai, cansei, já vou andando. 

— Hoje você está estranho. Não vai insistir para ficar? 

— É que já está tendo efeito a sua postagem no Face... É assim que vocês chamam, né? 

— É mesmo? Quem foi? 

— Não posso dizer. Só vou te dizer que me pediu um amor. 

— É, então deu ruim, porque só no meu Face devem ter umas 950 pessoas querendo amor e umas 450 querendo manter o que têm. 

— Pois é, foi uma delas... Precisando, é só chamar. Agora vai lá fazer o que você tem que fazer, que eu vou trabalhar. 

— Tá certo.

   
Alex Huche

sábado, 25 de janeiro de 2014

A Aula Inaugural

Era o primeiro dia na Faculdade, todos os novatos no auditório para a aula inaugural com o Reitor. 
Muitos alunos estavam apreensivos, orgulhosos, curiosos e adentra a sala um jovem cego, muito exaltado querendo um lugar para sentar. Não era comum alunos com deficiência visual na Faculdade, naquela época. 
Dois rapazes se levantaram e foram até o rapaz cego e o conduziram ao local próximo de onde estavam sentados, o que gerou enorme confusão.
O lugar era no fundo do auditório e o rapaz reclamava de tudo, de quem ele acabava esbarrando ao passar, com palavras tipo: "sou cego sim, mas você que não vê.", "Eu não quero tomar trote não, cego não pode tomar trote!"... 
E assim ele foi passando até se sentar.
Os dois amigos começaram a descrever a sala  para ele, pois ele insistia nos detalhes de como eram as pessoas ali, pois ele queria saber de tudo. 
Mas o filho da puta do cego repetia tudo alto: "tem uma gorda aqui na frente?", " entrou uma bicha na sala?", "Quem tem cara de corno, o Reitor?"
Foi um desconforto geral, o Reitor deu as boas vindas a todos e em seguida os professores representantes dos cursos falaram que conduziriam os alunos às instalações da instituição, como os laboratórios, salas e demais dependências. Nesse momento, o cego enlouqueceu, pois não tinha quem lhe tirasse da cabeça que aquilo não era trote e começou a gritar: "eu não vou sair daqui, isso é trote, vocês querem me dar trote, eu não vou sair."
Os dois rapazes ao lado cego, estavam com um misto vergonha e graça, se seguravam para não rir, pois tinham a impressão de que ele iria endoidar mais ainda.
A situação piorou quando a professora representante do curso de Biologia começou a falar dos laboratórios, nesse momento ele ficava em pé alertando a todos que aquilo era trote: "Gente eu sou cego e vocês não veem? Vamos sair todos isso é trote, tá na cara!"
Os dois rapazes levantavam toda hora para fazer o cego sentar.
Foi quando a professora representante do Curso de Biologia se irritou e se dirigiu ao rapaz: "escuta aqui, essa aula é muito importante e isso está uma palhaçada, Carlos Silveira, Alex Huche e Mauro Garritano saiam daqui agora que a aula do terceiro ano já começou. Fica aí se passando de cego e os outros dois dando apoio."
 Não nos restou outra coisa senão sairmos dali antes que apanhássemos.

Alex Huche

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Vende-se Amor


- Quanto está o amor?
- Bom, depende da qualidade, do tipo, do tempo de duração, porque, não sei se o senhor sabe, mas amor tem sempre data validade e essa é determinada por diversos fatores. No que você está pensando?
- Um amor possível, um amor básico... sabe, com bastante carinho, companheirismo... um amor sem dor, um amor quase incondicional.
- Hum, sei... mais algum adicional?
- Ah, sei lá! Eu acrescentaria um bom sexo, afinidade de sonhos e, claro, fidelidade.
- Hum, aí deu ruim, os opcionais "Bom Sexo", "Afinidade de Sonhos" e "Fidelidade" nem sempre são compatíveis com o produto e nem sempre compatíveis entre si, ainda mais no modelo desejado.
- Qual modelo?
- O modelo Possível, isso você só encontra no modelo Impossível, mas em ambos o preço está muito alto, tá puxado pra todo mundo, nem rico está podendo pagar. Você pode escolher um ou dois desse itens, mas ainda assim vai ficar salgado.
- Mas tem gente que acha.
- Assim como tem gente que encontra ouro, diamantes, tem gente que encontra o amor, mas sempre com muito trabalho para mantê-lo vivo.
- Sei, você me aconselha algum tipo de amor?
- Sim, eu aconselharia descartar os itens bom sexo, afinidade de sonhos e fidelidade, aí sim, no modelo Possível, na maioria das vezes, esse vem até de graça.
- E qual tipo seria?
- O amor de mãe.
- Hum, me vê dois.
- Você é homem, só pode ter um.
- Eh, Fodeu!

Alex Huche