— Ai, cara, o que é isso?
— Ué, sou eu...
— São Suely, como que você veio aparecer aqui? Não vou me acostumar com você aparecendo toda hora... Logo agora que estou dirigindo na estrada, você vem e me surge do meu lado?
— Não tinha nada para fazer, pensei: "Tive uma ideia."
— Pô, qual era a ideia? Era me matar de susto, né? Causar um acidente ou qualquer coisa assim?
— Não, nada disso. Pensei: poxa, ninguém me pede nada porque eu não sou conhecido... Eu estava olhando aqui o seu Facebook...
— Porra, você está vasculhando meu Facebook?
— Ah, deixa de bobagem, eu olho o que eu quiser. Eu sou santo, olho até o que passa na sua mente...
— Não, pelo amor de Deus, não faça isso!
— É que... É o seguinte: eu estava vendo aqui, você tem mais de 1500 pessoas no seu Facebook.
— É, isso aí, tenho um bocado de gente mesmo.
— Você deve se achar o máximo, mas tem gente que tem mais de um milhão...
— Não, não quero ter um milhão, não. Vai ter muita gente querendo bater papo comigo e eu não tenho tempo.
— Sei... Escuto essa conversa no céu o tempo todo, ninguém nunca tem tempo para os outros... Só eu tenho que ter tempo para todo mundo.
— Tá, mas diz aí, qual a sua ideia, São Suely?
— Eu pensei que, com esse pessoal que você conhece, você podia me divulgar, né? Eu conto para você a minha história e você escreve no Facebook.
— Mas eu não escrevi naquele dia?
— Tá, mas você pode fazer melhor: faz uma página para mim e lá põe a minha história... Assim eu consigo alguns seguidores.
— Tudo bem, mas você vai ser o quê? Santo do amor?
— Não, do amor não... Já que eu não tenho especialidade, eu quero ser um santo assim tipo polivalente, tipo... "all in one".
— Ué, mas... Esse não é Jesus Cristo?
— Não, e... Que é isso, Jesus Cris... Deixa isso para lá! Fala isso baixo, que o pai dele é dono da parada toda e, se você me acha carente, o pai dele é mais ainda... Sabe como é, né? Ele é tão carente, tão carente, que quer ser amado sozinho e incondicionalmente... Ele não aceita que os homens acreditem em outros deuses. E aí os seguidores dele acham que é só ele que existe no mundo de Deus.
— Mas já que a gente está falando nisso, me diz: tem mais deuses?
— Alex, vamos deixar isso para lá... Eu não quero ter problemas. Me diz: o que você achou do meu manto púrpura?
— Porra... Ficou bonito... Ficou bonito, São Suely.
— Hum, falando assim, parece que não gostou.
— Só te aconselho a não aparecer para os outros com esse manto, assim como você fez comigo. Porque na primeira vez até que convém você usar uma coisa mais discreta...
— Olha, o que você acha? Uso um terninho, um tubinho?
— Não, pelo amor de Deus, Su... Vai usar um tubinho? Porra, não dá, velho, um tubinho não dá... Pô, você está doido? Quer ser o quê, o Santo das Mortes Inesperadas?
— Os outros santos usam camisola e ninguém estranha... Então uma coisa mais leve, uma minissaia...
— Porra, minissaia, caralho? Aí, você é um santo muito doido!
— Não sei por que você ri...
— Nada, não.
— Hum, que tal um longo?
— É, está bom. Um longo, com um manto assim... rosa-bebê, uma coisa mais light para você ficar mais feliz.
— Ah, tá. Vou te contar minha história...
— Bom, mas agora não dá, você está vendo que estou dirigindo.
— Ué, eu posso fazer o carro morrer e te conto a história.
— Não, pelo amor de Deus!
— Mas você está falando comigo, cara.
— Eu sei, São Suely, eu sei... Faz o seguinte: à noite você passa lá em casa e me conta a sua história.
— Ah, então está bom... Posso ficar mais um pouquinho com você?
— Pode, mas me diz uma coisa: só eu posso ver você no momento?
— É, porque só você acredita em mim. Eu só vou existir para quem acredita... Nós do plano celestial só existimos para vocês enquanto vocês acreditam em nós.
— Mas eu não acreditava em você, nem sabia que você existia.
— Ah, é... Não acreditava, mas você estava bêbado e desesperado.
— Tá bom. Então fica aí, porque ia ser estranho eu dirigindo na Rodovia Amaral Peixoto ao lado de um homem trajando um vestido e um manto púrpura.
— Ah, adoro essa música! Não aguento mais harpas... Esse solo do Santana é maravilhoso.
— Ué, lá no céu não tem outros instrumentos?
— Tem, claro que tem... Mas aí é flauta doce, flauta transversa, é gaita... Todo dia é chato.
— Sei... Jimi Hendrix está lá?
— Ah, esse sola na harpa que é uma maravilha, mas agora está proibido.
— Por quê?
— Ah, ele ateou fogo em três harpas no palco celestial, foi uma doideira!
— Está bom, São Suely... Vamos fazer o seguinte: vamos ouvir o solo do Santana, depois tem Eric Clapton e, em seguida, Pepeu Gomes.
— Adooooroooo! Adoro quando ele canta que é um homem feminino.
— Valeu... rsrsrs. Ah, e obrigado! O encontro foi show...
— Eu vi.
— Hã?
— Eu vi, ué!
— O que você viu?
— Tudo...
— Você sabe que aquilo nunca me aconteceu antes.
— Isso é normal, meu filho... Acontece com todo homem... Mesmo assim, você não achou maravilhoso?
— Sim.
— É o que basta.
— Hum... Tá certo.
Alex Huche
Alex Huche
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